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A ashwagandha virou moda. Aparece em vídeo de "reduz o cortisol", em lista de "adaptógenos", em chá, em goma. E quase sempre vendida como se fosse tão inofensiva quanto camomila.
A ashwagandha tem estudos razoáveis mostrando redução do estresse e melhora pequena do sono. Mas ela também tem casos documentados de lesão no fígado, efeito na tireoide e restrição em vários países europeus. Você merece saber os dois lados.
O que é a ashwagandha
A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica, da Índia. A parte mais estudada é a raiz. Os compostos que mais chamam atenção dos pesquisadores são os witanolídeos.
Ela é chamada de "adaptógeno", um termo que quer dizer algo como "ajuda o corpo a lidar com o estresse". É uma palavra popular, mas não é uma categoria científica bem definida.
Ashwagandha e estresse: o que os estudos mostram
Um dos estudos mais citados foi publicado em 2012 no Indian Journal of Psychological Medicine. Adultos estressados receberam extrato da raiz ou placebo, de forma duplo-cega. O grupo da ashwagandha teve redução em escalas de estresse e ansiedade e queda no cortisol.
O NIH resume assim o conjunto das pesquisas: vários estudos pequenos e curtos sugerem redução do estresse e da ansiedade percebidos, alguns com queda do cortisol.
Repare nas palavras: pequenos e curtos. É um sinal bom, mas não uma certeza.
Ashwagandha e sono
Em 2021, uma meta-análise publicada na PLoS One reuniu 5 estudos randomizados com 400 participantes, todos feitos na Índia. O resultado:
- melhora pequena, mas significativa, do sono em comparação ao placebo;
- efeito maior em pessoas com insônia do que em pessoas saudáveis;
- efeito maior com 600 mg por dia ou mais de extrato e com uso por 8 semanas ou mais;
- melhora também no estado de alerta ao acordar e na ansiedade.
Os autores consideraram a certeza da evidência moderada para o sono e pediram mais dados de segurança no longo prazo.
Se você está comparando com a melatonina, vale ler o texto sobre melatonina no Brasil, que tem um efeito também modesto, mas por outro caminho.
Os cuidados que quase ninguém conta
1. Fígado
O LiverTox, banco de dados do NIH sobre lesão hepática por remédios e plantas, classifica a ashwagandha como causa provável de lesão no fígado clinicamente aparente. Os pontos principais:
- os casos começaram a ser relatados em 2017 e aumentaram desde então;
- a lesão costuma aparecer de 2 a 12 semanas após começar o uso;
- os sinais típicos são pele e olhos amarelados (icterícia) e coceira;
- a maioria dos casos é leve a moderada e melhora em 1 a 4 meses após parar;
- houve casos graves, principalmente em pessoas que já tinham doença no fígado.
Quem tem cirrose ou doença hepática avançada deve evitar.
2. Tireoide
Segundo o NIH, estudos pequenos mostraram aumento dos hormônios da tireoide com ashwagandha, e há relatos de tireotoxicose (excesso de hormônio da tireoide) em mulheres, que melhorou ao parar o uso. Para quem tem hipertireoidismo ou usa remédio para tireoide, isso é sério.
3. Gravidez
Alguns especialistas orientam gestantes a não usar, por relatos de possível aborto espontâneo. A Farmacopeia Herbal Americana contesta esse ponto. Na dúvida, durante a gravidez, a regra é simples: não usar.
4. Restrições em outros países
- Dinamarca: proibiu a ashwagandha em alimentos e suplementos em 2023, após um relatório técnico de 2020.
- Holanda: o instituto nacional de saúde (RIVM) orienta não usar, especialmente gestantes.
- França: a agência ANSES orienta evitar em quem tem doença de tireoide, fígado ou coração, em gestantes e em quem usa sedativos.
Será que a gente deveria tratar como "chazinho" uma planta que um país europeu inteiro proibiu?
Interações com remédios
O NIH lista possíveis interações da ashwagandha com:
- remédios para tireoide;
- remédios para diabetes;
- remédios para pressão;
- imunossupressores;
- sedativos e remédios para dormir.
O guia completo está em suplemento e remédio juntos.
Por que o extrato padronizado importa aqui
Os estudos usaram extratos diferentes, de partes diferentes da planta, com teores diferentes de witanolídeos. O NIH chama atenção para isso: com tanta variação, é difícil cravar dose ou produto. Por que isso pesa tanto está em extrato padronizado. E o LiverTox lembra que rótulo errado, adulteração ou contaminação podem estar por trás de alguns casos de lesão. A mesma lógica vale para outros extratos de planta, como o da laranja moro.
Por que a avaliação do farmacêutico vale ouro aqui
Com a ashwagandha, dose, tipo de extrato e quem vai usar mudam tudo. A mesma planta que ajuda uma pessoa estressada e saudável pode ser um risco para quem tem tireoide alterada, doença no fígado ou usa sedativo. E a qualidade do insumo pesa: o LiverTox cita rótulo errado e contaminação entre as possíveis causas de alguns casos.
É exatamente para isso que existe a avaliação individual: olhar seus remédios, seus exames e sua história antes de qualquer planta.
Resumo rápido
- Ashwagandha (Withania somnifera): planta ayurvédica, raiz é a parte estudada.
- Estresse: estudos pequenos e curtos mostram redução do estresse percebido.
- Sono: melhora pequena, maior em quem tem insônia (meta-análise 2021).
- Fígado: causa provável de lesão hepática, de 2 a 12 semanas após o início.
- Tireoide: pode aumentar hormônios; relatos de tireotoxicose.
- Gravidez: não usar.
- Proibida na Dinamarca desde 2023.
Quando procurar um médico
- Pele ou olhos amarelados, urina escura ou coceira forte no corpo.
- Coração acelerado, tremor, perda de peso rápida ou calor excessivo.
- Uso junto com remédio para tireoide, diabetes, pressão ou dormir.
- Gravidez ou suspeita de gravidez.
Perguntas frequentes
Ashwagandha ajuda a dormir?
Uma meta-análise de 2021 com 5 estudos encontrou melhora pequena, mas significativa, no sono, maior em pessoas com insônia e com uso de 8 semanas ou mais.
Ashwagandha faz mal para o fígado?
Há casos documentados de lesão no fígado, que costumam aparecer de 2 a 12 semanas após o início. A maioria melhora ao parar, mas quem já tem doença no fígado deve evitar.
Quem tem tireoide pode tomar ashwagandha?
Precisa de cuidado. Estudos mostraram aumento de hormônios da tireoide e há relatos de hipertireoidismo. Quem usa remédio para tireoide deve falar com o médico antes.
Grávida pode tomar ashwagandha?
Não é recomendado. Órgãos de saúde da Holanda e da França orientam gestantes a evitar, e a Dinamarca proibiu a planta em alimentos e suplementos em 2023.
Referências
- Cheah KL et al., PLoS One, 2021 — Effect of Ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: A systematic review and meta-analysis
- Chandrasekhar K et al., Indian Journal of Psychological Medicine, 2012 — high-concentration full-spectrum extract of ashwagandha root in reducing stress and anxiety in adults
- NIH Office of Dietary Supplements — Ashwagandha: Fact Sheet for Health Professionals
- NIH LiverTox — Ashwagandha (atualizado em 2024)
- Nutrition Insight, 2024 — resposta de autoridades internacionais às preocupações com a ashwagandha
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