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Ashwagandha: estresse, sono e os cuidados que quase ninguém conta

A ashwagandha tem estudos bons para estresse e sono. Mas também tem casos de lesão no fígado, efeito na tireoide e até proibição na Dinamarca.

MAPor Dra. Maria Angélica B. VillelaFarmacêutica · CRF-MG 48.515 6 min de leitura Revisado por farmacêutico
Mulher dormindo tranquila, com uma xícara de chá de camomila ao lado
Mulher dormindo tranquila, com uma xícara de chá de camomila ao lado. Imagem ilustrativa.
Neste artigo · 9 tópicos
  1. O que é a ashwagandha
  2. Ashwagandha e estresse: o que os estudos mostram
  3. Ashwagandha e sono
  4. Os cuidados que quase ninguém conta
  5. Interações com remédios
  6. Por que o extrato padronizado importa aqui
  7. Por que a avaliação do farmacêutico vale ouro aqui
  8. Resumo rápido
  9. Perguntas frequentes

A ashwagandha virou moda. Aparece em vídeo de "reduz o cortisol", em lista de "adaptógenos", em chá, em goma. E quase sempre vendida como se fosse tão inofensiva quanto camomila.

A ashwagandha tem estudos razoáveis mostrando redução do estresse e melhora pequena do sono. Mas ela também tem casos documentados de lesão no fígado, efeito na tireoide e restrição em vários países europeus. Você merece saber os dois lados.

O que é a ashwagandha

A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica, da Índia. A parte mais estudada é a raiz. Os compostos que mais chamam atenção dos pesquisadores são os witanolídeos.

Ela é chamada de "adaptógeno", um termo que quer dizer algo como "ajuda o corpo a lidar com o estresse". É uma palavra popular, mas não é uma categoria científica bem definida.

Ashwagandha e estresse: o que os estudos mostram

Um dos estudos mais citados foi publicado em 2012 no Indian Journal of Psychological Medicine. Adultos estressados receberam extrato da raiz ou placebo, de forma duplo-cega. O grupo da ashwagandha teve redução em escalas de estresse e ansiedade e queda no cortisol.

O NIH resume assim o conjunto das pesquisas: vários estudos pequenos e curtos sugerem redução do estresse e da ansiedade percebidos, alguns com queda do cortisol.

Repare nas palavras: pequenos e curtos. É um sinal bom, mas não uma certeza.

Ashwagandha e sono

Em 2021, uma meta-análise publicada na PLoS One reuniu 5 estudos randomizados com 400 participantes, todos feitos na Índia. O resultado:

  • melhora pequena, mas significativa, do sono em comparação ao placebo;
  • efeito maior em pessoas com insônia do que em pessoas saudáveis;
  • efeito maior com 600 mg por dia ou mais de extrato e com uso por 8 semanas ou mais;
  • melhora também no estado de alerta ao acordar e na ansiedade.

Os autores consideraram a certeza da evidência moderada para o sono e pediram mais dados de segurança no longo prazo.

Se você está comparando com a melatonina, vale ler o texto sobre melatonina no Brasil, que tem um efeito também modesto, mas por outro caminho.

Os cuidados que quase ninguém conta

1. Fígado

O LiverTox, banco de dados do NIH sobre lesão hepática por remédios e plantas, classifica a ashwagandha como causa provável de lesão no fígado clinicamente aparente. Os pontos principais:

  • os casos começaram a ser relatados em 2017 e aumentaram desde então;
  • a lesão costuma aparecer de 2 a 12 semanas após começar o uso;
  • os sinais típicos são pele e olhos amarelados (icterícia) e coceira;
  • a maioria dos casos é leve a moderada e melhora em 1 a 4 meses após parar;
  • houve casos graves, principalmente em pessoas que já tinham doença no fígado.

Quem tem cirrose ou doença hepática avançada deve evitar.

2. Tireoide

Segundo o NIH, estudos pequenos mostraram aumento dos hormônios da tireoide com ashwagandha, e há relatos de tireotoxicose (excesso de hormônio da tireoide) em mulheres, que melhorou ao parar o uso. Para quem tem hipertireoidismo ou usa remédio para tireoide, isso é sério.

3. Gravidez

Alguns especialistas orientam gestantes a não usar, por relatos de possível aborto espontâneo. A Farmacopeia Herbal Americana contesta esse ponto. Na dúvida, durante a gravidez, a regra é simples: não usar.

4. Restrições em outros países

  • Dinamarca: proibiu a ashwagandha em alimentos e suplementos em 2023, após um relatório técnico de 2020.
  • Holanda: o instituto nacional de saúde (RIVM) orienta não usar, especialmente gestantes.
  • França: a agência ANSES orienta evitar em quem tem doença de tireoide, fígado ou coração, em gestantes e em quem usa sedativos.

Será que a gente deveria tratar como "chazinho" uma planta que um país europeu inteiro proibiu?

Interações com remédios

O NIH lista possíveis interações da ashwagandha com:

  • remédios para tireoide;
  • remédios para diabetes;
  • remédios para pressão;
  • imunossupressores;
  • sedativos e remédios para dormir.

O guia completo está em suplemento e remédio juntos.

Por que o extrato padronizado importa aqui

Os estudos usaram extratos diferentes, de partes diferentes da planta, com teores diferentes de witanolídeos. O NIH chama atenção para isso: com tanta variação, é difícil cravar dose ou produto. Por que isso pesa tanto está em extrato padronizado. E o LiverTox lembra que rótulo errado, adulteração ou contaminação podem estar por trás de alguns casos de lesão. A mesma lógica vale para outros extratos de planta, como o da laranja moro.

Por que a avaliação do farmacêutico vale ouro aqui

Com a ashwagandha, dose, tipo de extrato e quem vai usar mudam tudo. A mesma planta que ajuda uma pessoa estressada e saudável pode ser um risco para quem tem tireoide alterada, doença no fígado ou usa sedativo. E a qualidade do insumo pesa: o LiverTox cita rótulo errado e contaminação entre as possíveis causas de alguns casos.

É exatamente para isso que existe a avaliação individual: olhar seus remédios, seus exames e sua história antes de qualquer planta.

Resumo rápido

  • Ashwagandha (Withania somnifera): planta ayurvédica, raiz é a parte estudada.
  • Estresse: estudos pequenos e curtos mostram redução do estresse percebido.
  • Sono: melhora pequena, maior em quem tem insônia (meta-análise 2021).
  • Fígado: causa provável de lesão hepática, de 2 a 12 semanas após o início.
  • Tireoide: pode aumentar hormônios; relatos de tireotoxicose.
  • Gravidez: não usar.
  • Proibida na Dinamarca desde 2023.

Quando procurar um médico

  • Pele ou olhos amarelados, urina escura ou coceira forte no corpo.
  • Coração acelerado, tremor, perda de peso rápida ou calor excessivo.
  • Uso junto com remédio para tireoide, diabetes, pressão ou dormir.
  • Gravidez ou suspeita de gravidez.

Perguntas frequentes

Ashwagandha ajuda a dormir?

Uma meta-análise de 2021 com 5 estudos encontrou melhora pequena, mas significativa, no sono, maior em pessoas com insônia e com uso de 8 semanas ou mais.

Ashwagandha faz mal para o fígado?

Há casos documentados de lesão no fígado, que costumam aparecer de 2 a 12 semanas após o início. A maioria melhora ao parar, mas quem já tem doença no fígado deve evitar.

Quem tem tireoide pode tomar ashwagandha?

Precisa de cuidado. Estudos mostraram aumento de hormônios da tireoide e há relatos de hipertireoidismo. Quem usa remédio para tireoide deve falar com o médico antes.

Grávida pode tomar ashwagandha?

Não é recomendado. Órgãos de saúde da Holanda e da França orientam gestantes a evitar, e a Dinamarca proibiu a planta em alimentos e suplementos em 2023.

Referências

  1. Cheah KL et al., PLoS One, 2021 — Effect of Ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: A systematic review and meta-analysis
  2. Chandrasekhar K et al., Indian Journal of Psychological Medicine, 2012 — high-concentration full-spectrum extract of ashwagandha root in reducing stress and anxiety in adults
  3. NIH Office of Dietary Supplements — Ashwagandha: Fact Sheet for Health Professionals
  4. NIH LiverTox — Ashwagandha (atualizado em 2024)
  5. Nutrition Insight, 2024 — resposta de autoridades internacionais às preocupações com a ashwagandha

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