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Imunoterapia fez o tumor sumir em 49 de 49 pacientes. E agora?

Num estudo publicado no New England Journal of Medicine, todos os 49 pacientes com um tipo específico de câncer de reto ficaram sem sinal do tumor só com imunoterapia, sem cirurgia.

MAPor Dra. Maria Angélica B. VillelaFarmacêutica · CRF-MG 48.515 5 min de leitura Revisado por farmacêutico
Pesquisadora no laboratório observando uma placa de cultura
Pesquisadora no laboratório observando uma placa de cultura. Imagem ilustrativa.
Neste artigo · 7 tópicos
  1. O que o estudo fez
  2. Os números
  3. Por que funcionou tão bem nesse tipo de tumor
  4. O que isso muda para você
  5. O que ainda não se sabe
  6. Resumo rápido
  7. Perguntas frequentes

Imagine receber o diagnóstico de câncer no reto e ouvir do médico que talvez você não precise de cirurgia, nem de radioterapia, nem de bolsa de colostomia. Para um grupo de pacientes nos Estados Unidos, foi exatamente isso que aconteceu.

Num estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2025, todos os 49 pacientes com um tipo específico de câncer de reto, chamado dMMR, ficaram sem nenhum sinal do tumor depois de 6 meses de imunoterapia, e nenhum precisou operar. O resultado vale para esse tipo de tumor, e o acompanhamento ainda é curto. Mas é uma das notícias mais fortes da oncologia nos últimos anos.

O que o estudo fez

O estudo foi conduzido no Memorial Sloan Kettering, um dos maiores centros de câncer do mundo, em Nova York. A líder foi a oncologista Andrea Cercek. Os resultados foram apresentados no congresso da AACR, a associação americana de pesquisa em câncer, e publicados no NEJM, uma das revistas médicas mais respeitadas.

Os pacientes tinham tumores em estágio I, II ou III, ou seja, que ainda podiam ser operados com chance de resolver. Em vez de começar pela cirurgia, eles receberam um remédio de imunoterapia chamado dostarlimabe, por 6 meses.

Quem terminava o tratamento sem nenhum sinal do tumor nos exames podia escolher não operar e seguir em acompanhamento. Quem ainda tinha tumor ia para a cirurgia normalmente.

Os números

Os pesquisadores dividiram os pacientes em dois grupos:

  • Câncer de reto: os 49 pacientes que completaram o tratamento tiveram resposta clínica completa. Todos escolheram não operar.
  • Outros tumores (estômago, esôfago, fígado e vias biliares, sistema urinário e órgãos ginecológicos): 35 de 54 pacientes tiveram resposta completa, e 33 deles também não operaram.
  • No total: 84 de 103 pacientes ficaram sem sinal do tumor, e 82 evitaram a cirurgia.
  • Dois anos depois: 92% estavam livres de volta da doença.

E os efeitos colaterais? Segundo o artigo, 95% dos pacientes tiveram efeitos leves e reversíveis (graus 1 e 2) ou nenhum efeito. Em nenhum caso o tratamento atrapalhou a chance de operar depois, se fosse preciso.

Na apresentação do congresso, os autores contaram que 4 pacientes já estavam com resposta completa mantida havia 5 anos.

Por que funcionou tão bem nesse tipo de tumor

Pense no DNA como um livro enorme que a célula copia toda vez que se divide. Nessa cópia, sempre aparecem erros de digitação. A célula tem um "corretor ortográfico" que conserta esses erros. Ele se chama sistema de reparo de mau pareamento, em inglês mismatch repair (MMR).

No tumor dMMR, esse corretor está quebrado. O resultado é um tumor cheio de mutações. E aqui está a virada: quanto mais mutações, mais "estranha" a célula fica para o sistema de defesa. Ela fica mais fácil de ser reconhecida.

O problema é que o tumor aprende a pisar no freio do sistema de defesa. Esse freio é uma proteína chamada PD-1. O dostarlimabe bloqueia o PD-1. É como tirar o pé do freio: as células de defesa, que já enxergavam o tumor, finalmente conseguem atacar.

Por isso o efeito foi tão forte justamente nos tumores dMMR. Em tumores com o corretor funcionando, a imunoterapia costuma ter efeito bem menor.

O que isso muda para você

A mudança mais prática é uma pergunta. Se você ou alguém da sua família tem câncer colorretal ou outro tumor sólido, vale perguntar ao oncologista: "o tumor foi testado para MMR ou instabilidade de microssatélites (MSI)?" É um exame feito no próprio material da biópsia.

Esse resultado pode mudar a ordem do tratamento, e em alguns casos permitir preservar o órgão. Para quem tem câncer no reto, isso significa evitar cirurgia grande, radioterapia na pelve e as sequelas que vêm junto, como alterações no intestino, na vida sexual e na fertilidade.

Se você está em tratamento e usa algum suplemento ou chá, avise o oncologista. Algumas plantas e vitaminas conversam com remédios, como explicamos no guia de suplemento e remédio juntos.

O que ainda não se sabe

Uma boa notícia contada pela metade vira falsa esperança. Então aqui vai a outra metade:

  • Vale para uma minoria. O estudo incluiu só tumores dMMR. A maioria dos cânceres de reto não tem essa característica.
  • Resposta clínica, não laboratorial. "Sem sinal do tumor" foi medido por exames, como endoscopia e ressonância. Como os pacientes não operaram, não dá para analisar o órgão inteiro no microscópio.
  • Acompanhamento ainda curto. O tempo médio de seguimento foi de 20 meses. Para câncer, os médicos querem ver 5 anos ou mais antes de chamar isso de padrão.
  • Um centro só. O estudo foi feito num hospital de ponta. Precisa ser repetido em outros lugares.

Mesmo assim, a direção é clara. Para esses tumores, a imunoterapia deixou de ser só o último recurso e virou candidata a primeiro tratamento. E isso faz parte de um movimento maior, que aparece também nos números de sobrevivência ao câncer, que chegou a 70% nos Estados Unidos.

Resumo rápido

  • Estudo do Memorial Sloan Kettering, publicado no NEJM em 2025.
  • Remédio: dostarlimabe (bloqueador de PD-1) por 6 meses, antes de qualquer cirurgia.
  • Câncer de reto dMMR: 49 de 49 pacientes sem sinal do tumor, nenhum operou.
  • Outros tumores dMMR: 35 de 54 com resposta completa.
  • 92% livres de volta da doença em 2 anos; efeitos colaterais leves na grande maioria.
  • Vale só para tumores dMMR. Pergunte ao oncologista se o tumor foi testado.

Quando procurar um médico

  • Sangue nas fezes ou fezes muito escuras.
  • Mudança no hábito intestinal que dura mais de algumas semanas.
  • Emagrecimento sem motivo, cansaço forte ou anemia nos exames.

Perguntas frequentes

A imunoterapia substitui a cirurgia no câncer de reto?

Num grupo específico, sim, pelo menos por enquanto. No estudo, todos os 49 pacientes com tumor de reto do tipo dMMR que terminaram o tratamento ficaram sem sinal do tumor e não precisaram operar. Vale só para tumores com essa característica, e o acompanhamento ainda é curto.

O que é tumor dMMR?

É um tumor em que o sistema que corrige erros do DNA não funciona. Ele acumula muitas mutações, e isso faz o sistema de defesa enxergar melhor as células doentes. Um exame do próprio tumor mostra se ele é dMMR.

Qual remédio foi usado no estudo?

O dostarlimabe, um anticorpo que bloqueia a proteína PD-1, por 6 meses. Ele tira o freio do sistema de defesa para atacar o tumor.

Isso vale para qualquer câncer?

Não. O estudo incluiu só tumores dMMR em estágio inicial. Nos tumores fora do reto, a resposta completa apareceu em 35 de 54 pacientes, um resultado bom, mas menor.

Referências

  1. Cercek A et al., New England Journal of Medicine, 2025 — Nonoperative Management of Mismatch Repair-Deficient Tumors (PubMed)
  2. Pharmacy Times, abril de 2025 — High Response Rates With Dostarlimab Suggest New Standard for dMMR Treatment (AACR 2025)

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