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"Mas eu moro no Brasil, pego sol todo dia." Ouço essa frase quase sempre que alguém volta do médico com o exame de vitamina D baixo. E a surpresa é justa: como pode faltar vitamina do sol num país de sol?
A falta de vitamina D é comum no Brasil porque o sol só vira vitamina D quando bate na pele, no horário certo, sem barreira, e o corpo ainda precisa estar apto a produzir. Uma meta-análise brasileira, com 72 estudos, encontrou cerca de 28% de deficiência e 45% de insuficiência de vitamina D na população estudada. Ou seja: ter sol no país não garante sol na pele.
Como o corpo faz vitamina D?
Pense na pele como uma pequena fábrica com painel solar. Quando os raios UVB batem nela, uma substância derivada do colesterol vira vitamina D. Depois, o fígado e os rins a transformam na forma que o corpo usa, inclusive para absorver o cálcio dos ossos.
O problema é que o painel solar tem muitos "desligadores".
Por que falta vitamina D mesmo com tanto sol?
1. A vida é dentro de casa
Trabalho em escritório, casa, carro, shopping. Muita gente passa a semana inteira sem expor braços e pernas ao sol do meio do dia.
2. Protetor solar e roupa
O NIH explica que protetores com FPS 8 ou mais parecem bloquear os raios que produzem vitamina D. Na prática, como as pessoas costumam passar menos protetor do que o indicado, alguma produção ainda acontece. Proteger a pele contra câncer continua sendo importante. Só que isso precisa entrar na conta.
3. A idade
Com os anos, a pele produz menos vitamina D com a mesma quantidade de sol. Por isso idosos são um dos grupos de maior risco. Na mulher, a menopausa soma outro fator para o osso, como explico em nutrientes na menopausa.
4. A cor da pele
A melanina, que dá cor à pele, reduz a capacidade de produzir vitamina D. Pessoas de pele mais escura precisam de mais tempo de sol para produzir a mesma quantidade.
5. Excesso de peso
Segundo o NIH, a obesidade não reduz a capacidade da pele de produzir vitamina D. Mas a gordura "guarda" parte da vitamina, e por isso pessoas com obesidade podem precisar de mais para chegar ao mesmo nível no sangue.
O que dizem os estudos brasileiros?
A meta-análise de Pereira-Santos e colaboradores, publicada na Critical Reviews in Food Science and Nutrition, reuniu 72 estudos brasileiros publicados entre 2000 e 2017. A prevalência combinada foi de 28,16% de deficiência e 45,26% de insuficiência de vitamina D. O título do trabalho já diz tudo: "uma população num país ensolarado".
Como ler o exame de vitamina D?
O exame mede a 25-hidroxivitamina D, ou 25(OH)D. Em 2020, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) publicaram um posicionamento com estes valores:
| Valor de 25(OH)D | O que significa |
|---|---|
| Abaixo de 20 ng/mL | Deficiência |
| 20 a 60 ng/mL | Adequado para a população geral até 65 anos |
| 30 a 60 ng/mL | Ideal para grupos de risco |
| Acima de 100 ng/mL | Risco de intoxicação |
Os grupos de risco citados são: idosos e pessoas que caem com frequência, quem fez cirurgia bariátrica, gestantes, quem usa remédios que interferem na vitamina D, pessoas com osteoporose, hiperparatireoidismo secundário ou osteomalácia, e pacientes com diabetes tipo 1, câncer, doença renal crônica ou problemas de absorção.
O mesmo documento diz que, até agora, não há benefício claro em manter a vitamina D acima de 60 ng/mL em nenhuma situação clínica. Mais não é melhor.
Por que dose, forma e qualidade importam?
Aqui mora o erro mais comum: tomar vitamina D "por conta", sem exame, sem saber quanto falta. O mecanismo é este: a vitamina D se acumula na gordura do corpo. Dose demais, por tempo demais, sobe o cálcio do sangue.
A forma também conta. Segundo o NIH, tanto a D2 quanto a D3 elevam a vitamina D no sangue, mas a D3 eleva mais e mantém o nível por mais tempo. E a qualidade do ativo importa: vitamina D é usada em quantidades muito pequenas, em microgramas, e um erro de pesagem faz diferença. Por isso a Anvisa exige controle mais rígido para fórmulas com doses muito baixas de ativo.
Se a sua receita tiver vitamina D em UI ou mcg e você não souber ler, veja como ler sua receita de manipulado.
Vitamina D em excesso faz mal?
Sim. O excesso causa hipercalcemia (cálcio alto no sangue). Os sintomas incluem náusea, vômito, fraqueza muscular, desidratação e pedra nos rins. Em casos graves, pode levar a problema renal e arritmia. Segundo o NIH, a intoxicação quase sempre vem do excesso de suplemento, não do sol.
O NIH também cita interações com orlistate, estatinas, corticoides e diuréticos tiazídicos.
Quando procurar um médico
- Para pedir o exame, principalmente se você está em um grupo de risco.
- Se tem dor óssea, fraqueza muscular ou quedas frequentes.
- Se usa vitamina D e sente náusea, sede excessiva, urina muito ou tem cólica renal.
Vitamina D costuma vir junto de outros nutrientes na receita. Veja também tipos de magnésio e ômega 3: EPA, DHA e qualidade.
Resumo rápido
- Sol no país não é sol na pele: rotina, protetor, idade, cor da pele e peso mudam tudo.
- Meta-análise brasileira: cerca de 28% de deficiência e 45% de insuficiência.
- Exame: abaixo de 20 ng/mL é deficiência; 30 a 60 ng/mL é o ideal para grupos de risco.
- Acima de 100 ng/mL há risco de intoxicação.
- D3 eleva mais e por mais tempo que D2.
- Dose sempre orientada pelo exame e pelo prescritor.
Perguntas frequentes
Por que tanta gente tem falta de vitamina D no Brasil?
Porque a vitamina D depende de sol na pele no horário certo, e a vida moderna é dentro de casa, com protetor e roupa. Idade, pele mais escura e excesso de peso também reduzem os níveis.
Qual o valor normal de vitamina D no exame?
Pelo posicionamento da SBEM e da SBPC/ML de 2020, entre 20 e 60 ng/mL é adequado para a população geral, e entre 30 e 60 ng/mL é o ideal para grupos de risco, como idosos e gestantes.
Vitamina D em excesso faz mal?
Faz. O excesso pode aumentar o cálcio no sangue e causar náusea, vômito, fraqueza, pedra nos rins e, em casos graves, problemas no coração e nos rins. Acima de 100 ng/mL há risco de intoxicação.
Vitamina D2 e D3 são iguais?
As duas elevam a vitamina D no sangue, mas segundo o NIH a D3 eleva mais e mantém o nível por mais tempo.
Referências
- Pereira-Santos M et al., Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 2019 — Epidemiology of vitamin D insufficiency and deficiency in a population in a sunny country: geospatial meta-analysis in Brazil
- Moreira CA et al., Archives of Endocrinology and Metabolism, 2020 — Reference values of 25-hydroxyvitamin D revisited: a position statement from SBEM and SBPC/ML
- NIH Office of Dietary Supplements, 2026 — Vitamin D: Fact Sheet for Health Professionals
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