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Você olha a receita e parece outra língua: "q.s.p.", "mg", "30 cápsulas", "uso contínuo". E ainda tem aquela frase no fim da consulta: "manipula lá na farmácia tal".
Uma receita de manipulado precisa dizer, de forma legível, quem é o paciente, quais ativos e em que quantidade, em que forma, quantas unidades, como usar, a data e quem prescreveu, com o número do conselho. E a escolha da farmácia é sua: as regras da Anvisa e o Código de Ética Médica proíbem amarrar a receita a uma farmácia.
Vamos ler uma receita juntos, linha por linha.
O que cada parte da receita quer dizer?
1. Identificação do paciente
Seu nome completo. Em alguns casos, também a idade ou o peso, principalmente para criança, porque muda o cálculo da dose.
2. Os ativos e as quantidades
É o coração da receita. Cada ativo vem com a quantidade por unidade, geralmente em mg (miligrama), mcg (micrograma), UI (unidades internacionais) ou %. Exemplo de leitura: "ativo X 100 mg" quer dizer 100 mg em cada cápsula, e não no pote inteiro.
3. A forma farmacêutica
Cápsula, sachê, solução oral, gotas, creme, gel, xampu. A forma muda a absorção, o sabor e a rotina. Não é estética. É parte do tratamento, como explico em por que a forma muda o resultado.
4. "q.s.p." e a quantidade total
"q.s.p." significa "quantidade suficiente para". Aparece muito em creme e líquido: "creme base q.s.p. 60 g" quer dizer que os ativos vão numa base até completar 60 gramas. Em cápsula, vem a quantidade de unidades, como "30 cápsulas".
5. O modo de usar (posologia)
Quantas vezes por dia, em que horário, por quanto tempo, antes ou depois da refeição. Se essa parte estiver vaga, pergunte. O farmacêutico deve te orientar e, se precisar, falar com quem prescreveu.
6. Data, assinatura e identificação do prescritor
Nome, número do conselho (CRM, CRO, CRN e outros) e assinatura. O Código de Ética Médica proíbe o médico de receitar de forma secreta ou ilegível, ou sem a identificação do número de registro.
O que a receita NÃO pode ter?
Aqui está uma regra que pouca gente conhece. A RDC 67/2007 da Anvisa diz, no item 5.17.4, que o prescritor não pode prescrever fórmula com código, símbolo ou nome de fórmula. E o receituário não pode ter identificação nem propaganda de farmácia.
Na prática:
- Receita com "Fórmula Fulano nº 3" ou um código que só uma farmácia entende está fora da regra.
- Bloquinho de receita com logotipo de farmácia também está.
Por quê? Porque a receita tem que ser entendida e manipulada por qualquer farmácia regular. Ela é do paciente, não de uma empresa.
Por que você pode escolher a farmácia?
São três camadas de proteção:
- Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018), art. 68: o médico não pode exercer a profissão com interação ou dependência de farmácia, indústria farmacêutica ou empresas que vendem produtos de prescrição.
- Mesmo código, art. 69: proíbe o médico de exercer ao mesmo tempo medicina e farmácia, e de obter vantagem pela prescrição.
- RDC 67/2007, item 5.4: drogarias e outros estabelecimentos não podem captar receitas de manipulados, e não é permitida a intermediação de receitas entre farmácias de empresas diferentes.
O médico pode, sim, dizer que conhece uma farmácia de confiança. Mas a decisão é sua. Se quiser critérios para escolher, montei um checklist em como escolher uma farmácia de manipulação em São Sebastião do Paraíso e região.
O que a farmácia faz com a sua receita?
Antes de pesar qualquer coisa, o farmacêutico avalia a receita: concentração, viabilidade e compatibilidade entre os ingredientes (RDC 67/2007, item 5.18.1.1).
Se a dose ou a posologia passar dos limites farmacológicos, ele precisa pedir confirmação expressa do prescritor. Sem essa confirmação, a farmácia não pode manipular nem entregar (item 5.18.2). Isso protege você.
Depois que a fórmula é feita, a receita recebe o carimbo da farmácia, com a data e o número de registro da manipulação (item 14.2). Guarde a sua cópia.
E os remédios controlados?
Medicamentos controlados seguem regras próprias, com receituário e notificação especiais (Portaria SVS/MS 344/1998). Nesses casos, a farmácia retém a receita conforme a regra de cada substância. Na dúvida, pergunte antes de sair do consultório.
Resumo rápido
- A receita precisa ser legível e trazer paciente, ativos com quantidade, forma, quantidade total, modo de usar, data e prescritor com número do conselho.
- "q.s.p." = quantidade suficiente para completar o total.
- Código, símbolo ou nome de fórmula na receita não é permitido (RDC 67/2007, 5.17.4).
- Receituário com marca de farmácia também não.
- A escolha da farmácia é sua (Código de Ética Médica, arts. 68 e 69).
- Dose fora do limite só é manipulada com confirmação expressa do prescritor.
Para entender quando vale manipular e o que muda entre manipulado e industrializado, veja manipulado ou industrializado e o que é farmácia de manipulação.
Perguntas frequentes
Sou obrigado a manipular na farmácia que o médico indicou?
Não. A receita é sua e pode ser levada a qualquer farmácia de manipulação regular. O Código de Ética Médica proíbe o médico de exercer a profissão com interação ou dependência de farmácia.
A receita pode vir com o nome de uma fórmula ou um código?
Não. A RDC 67/2007 da Anvisa impede o prescritor de usar código, símbolo ou nome de fórmula, e o receituário não pode ter identificação ou propaganda de farmácia.
O que a receita de manipulado precisa ter?
Nome do paciente, cada ativo com a quantidade, a forma farmacêutica, a quantidade total, o modo de usar, data, assinatura e identificação do prescritor com o número do conselho. Tudo legível.
O que acontece se a dose da receita estiver alta demais?
O farmacêutico precisa pedir a confirmação expressa de quem prescreveu. Sem essa confirmação, a farmácia não pode manipular nem entregar a fórmula.
Referências
Linha de suplementos H9 Pharma
A H9 Pharma é a marca de suplementos alimentares do grupo H9, a mesma família da H9 Fórmula. Veja os suplementos H9 Pharma. Suplemento alimentar não é medicamento e não substitui o tratamento indicado pelo seu médico.

